Grande Prêmio de San Marino, a pequena República encravada no coração da Italia. Quando o pelotão dirige-se a mais de 300km/h ao final da reta dos boxes e mergulha para o contorno da famosa, veloz e temida curva Tamburelo, um carro estranhamente passa reto, segundo como uma bala em direção ao impávido muro de concreto. O choque é violento, o mundo prende a respiração. E agora? Familiar este enredo, não? Pois é. Mas não, eu não estou falando do acidente Dele.
Em 1989, era o final de semana do meu aniversário, me lembro bem, e nas primeiras voltas da corrida Gerhard Berger pilotava uma Ferrari, perseguia os ponteiros da corrida (Senna e Prost), e sem maiores explicações passou vazado pela tangência da curva Tamburelo, colidindo violentamente com o muro. Em segundos o carro pega fogo, e as pessoas começam a temer pela vida do popular e veloz piloto austríaco.
Miraculosamente Berger escapa, tem apenas queimaduras nas mãos, e segue longa carrera no automobilismo, aposentando-se em 1997.
O adorável carro desta edição é um legítimo representante da era dos “charutinhos”. A Maserati 250F, modelo usado por vários pilotos entre as temporadas de 1954 e 1960 da Fórmula 1.
O 250F deu as caras pela primeira vez Grande Prêmio da Argentina de 1954, nas mãos de Juan Manuel Fangio. Naquele mesmo ano Stirling Moss, outro piloto lendário, também conduziu o modelo, pilotando um exemplar privado. (naquele tempo nem todos os pilotos eram da fábrica, e assim alguns adquiriam os carros e inscreviam-se por conta própria nas corridas).
Em 1955, foi introduzida uma caixa de câmbio de 5 marchas, injeção de combustível SU e freios a disco Dunlop. Já em1956, Stirling Moss venceu no Grande Prêmio da Itália e o Grande Prêmio de Mônaco em seu carro particular.
Naquele ano a evolução desenvolvida por Giulio Alfieri trazia tubos de aço, mais leves que os convencionais, dando ao carro um elegante e resistente corpo, que somados aos motores V12 mais potentes, com 315cv, melhoraram consideravelmente o desempenho da máquina.
Este motor depois foi reaproveitado no projeto do Cooper Maserati de 1966.
Em 1957 Juan Manuel Fangio pilotou o carro para mais 4 vitórias do campeonato, incluindo o triunfo no lendário Grande Prêmio da Alemanha em Nürburgring (4 de agosto de 1957), onde o argentino descontou uma diferença 48 segundos em 22 voltas, ultrapassando o líder da corrida, Mike Hawthorn, na última volta para vencer.
O elegante carrinho vermelho ainda venceu muitas provas extra-campeonato ao redor do mundo, inscrevendo seu nome e a marca do tridente na história do automobilismo mundial.
Agora sim, já temos a história sendo escrita debaixo de nossos incrédulos olhos: pela primeira vez em 62 anos de Fórmula 1 o campeonato tem 6 vencedores diferentes nas 6 primeiras etapas. Mark Webber da Red Bull venceu no circuito de rua do principado, e colocou seu nome ao lado de Vettel, Alonso, Maldonado, Button e Rosberg.
Herdando a pole-position de Michal Schumacher, dono do melhor tempo mas punido em 5 posições no grid devido ao acidente com Bruno Senna na Espanha, Webber não precisou de muito para assumir a ponta e remar seguro para a ponta. Mas se isso em duas linhas pode soar como prenúncio de uma corrida insossa, qualquer análise neste sentido pode parar por aí. Em realidade tivemos uma prova espetacular, a ponto de com 5 voltas para o final 7,5 segundos separarem o líder Webber do sexto colocado, o brasileiro Felipe Massa.
Surpreendendo a todos o brasileiro teve um final de semana digno de nota, andando à frente de Alonso em todos os treinos, sendo o mais rápido no Q2, e empurrando o companheiro no primeiro trecho da prova. Esteve o tempo todo no encalço do pelotão da frente, e desta vez não fez apenas figuração, teve uma atuação defensável, própria de piloto de ponta.
Bruno Senna que brigou com o carro no final de semana todo chegou aos pontos, e poderia ter ido mais longe, mas ficou preso atrás do ritmo inferior de Kimi Raikkonen. Mônaco é Mônaco, e ultrapassar lá não é uma tarefa simples.
Foi uma grande corrida.
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1. Webber: herdou a pole do punido Schumacher. Conduziu com segurança e pode crescer quando Vettel tem performances mais apagadas, não exatamente o que aconteceu hoje. Se embalar vira um adversário no campeonato. Por enquanto está apenas se reabilitando de um começo de ano ruim;
2. Rosberg: comendo pelas beiradas, aqui e ali, Rosberg vai firmando-se como um protagonista do grid. Venceu sua primeira e agora figura constantemente entre os 3 primeiros;
3. Alonso: a Ferrari cresceu. E com um piloto como Alonso tem chances no campeonato justamente pelas performances anteriores. Quando o carro era uma carroça Fernandinho soube conquistar pontos preciosíssimos, que fazem a diferença agora;
4. Vettel: não nos enganemos. Sebastian largou em décimo. Assim, o quarto posto tendo saltado na frente de todos com uma estratégia diferente foi uma grande sacada. Amadureceu a ponto de não perder mais a cabeça quando disputa o meio do pelotão;
5. Hamilton: discreto durante toda a corrida, foi presa fácil para Alonso e Vettel, e andou um bom tempo segurando Massa. Não foi de suas melhores performances;
6. Massa: alvíssaras. Massa, como eu disse ali em cima, teve um final de semana digno de suas performances no passado. Andou forte, pressionou Alonso, figurou no topo da tabela de tempos. É assim que deve ser. Que mantenha a cabeça no lugar.
7. Di Resta: o escocês é discreto, mas eficiente. O carro que pilota não é dos mais inspirados, mas ainda assim é figurinha fácil nos pontos;
8. Hulkenberg: mais virtuose que seu companheiro, também belisca seus pontinhos, e pode um dia pavimentar seu lugar em times maiores;
9. Raikkonen: sofreu com problemas de acerto desde quinta-feira. Na corrida atrasou boa parte do pelotão, mas defendeu-se e salvou dois pontinhos. Não está tendo vida fácil com Grosjean na garagem ao lado, mas o companheiro é um trapalhão de marca maior;
10. Senna: apanhou no acerto do carro numa pista que particularmente costuma andar bem. Classificou-se mal, mas marcou mais um ponto, e viu Maldonado não terminar a corrida. Precisa melhorar em classificação;
Primeira volta do Grande Prêmio da Italia de 1990. Senna larga na frente, seguido por Berger e Alesi. Fechando o primeiro giro, os carros passam voando pela curva Parabólica, e entram a mais de 300km/h na longa reta de chegada.
No contorno desta veloz curva a Lotus amarela de Dereck Warwick perde a trajetória, aponta para fora da pista e o acidente é impressionante. Mais assustador ainda é que o piloto saia andando do carro.
Semanas depois Martin Donelly, seu companheiro de equipe sofre um terrível acidente em Jerez de La Frontera, quase perdendo a vida. Senna e Warwick haviam conversado na véspera, e o brasileiro pedira a Dereck para não correr, pois seu carro não era seguro.
No capítulo anterior da sessão mostramos Vettel na volta da pole em 2011. Neste vamos com Senna, e com câmbio manual.
É delicioso acompanhar. E também apavorante.
Senna dizia que por causa da proximidade com os muros, era possível sentir o cheiro da tinta do guard-rail, que normalmente era pintado na semana anterior à corrida pelas ruas de Monte Carlo.
Final de semana do Grande Prêmio de Mônaco. A claustrofóbica pista do principado é um dos lugares mais improváveis para se organizar uma corrida de Fórmula 1.
Definida por Nelson Piquet como igual “andar de bicicleta na sala”, uma volta em alta velocidade pelo circuito de rua exige sangue frio e uma certa dose de falta de juízo.
Veja a volta da pole position de Sebastian Vettel em 2011, que não me deixa mentir.
A peça rara de hoje é o lendário Tyrrell P34, também conhecido pelo óbvio apelido de “seis rodas”. Desenhado por Derek Gardner, projetista-chefe da Tyrrell, o carro usava quatro rodas especialmente fabricadas de 10 polegadas de diâmetro (250 mm) na frente, com duas rodas de tamanhonormal na parte de trás.
Ao contrário da crença popular, a idéia dos pneus dianteiros menores não era ter uma menor “área frontal” para reduzir o arrasto. Na verdade, o desenho de seis rodas, reza a lenda buscavam maior grip na dianteira do carro, ajudando a aumentar o downforce frontal pela maior área de contato.
Em suma a idéia buscava mais aderência sem precisar de tanta angulação nas asas. Com o dobro de pneus “pegando no asfalto”, menos pressão aerodinâmica seria necessária.
No dia em que o projeto foi exibido ao público e imprensa pela primeira vez o pano que o cobria foi retirado da frente para trás e os suspiros coletivos de imprensa do mundo disseram tudo.
Junto com o BrabhamBT46B ”Fancar” (carro ventilador) desenvolvido em 1978, o Tyrrell de seis rodas foi uma das duas mais radicais soluções encontradas por uma equipe para ter sucesso na Fórmula 1.
O carro estreou no Grande Prêmio da Espanha de 1976, e de cara provou sermuito competitivo. Ambos os seus pilotos, Jody Scheckter e Patrick Depailler foram capazes de produzir resultados sólidos com o carro, mas enquanto Depailler elogiou o carro continuamente, Scheckter percebeu que seria apenas temporariamente competitivo. Os pneus Goodyear especiais para a sua frente não estavam sendo desenvolvidos o suficiente, e o carro perdeu performance até o final da temporada.
O momento de ouro P34 veio na etapa sueca do campeonato quando Scheckter e Depailler terminaram em primeiro e segundo, fazendo de Scheckter é o único piloto a vencer uma corrida em um carro de seis rodas em toda a história da Fórmula 1. Ele deixou a equipe no final da temporada, insistindo que o carro de seis rodas era “um lixo!”
O acidente de hoje é um dos mais impressionantes, pela força do impacto.
Robert Kubica, hoje recuperando-se de um terrível acidente correndo de rally, pilotava uma BMW-Sauber em 2007. Disputando posição na relargada do sempre caótico Grande Prêmio do Canadá, tocou na traseira de uma Toro Rosso e decolou. Na época a desaceleração em 80g’s.
Devido ao acidente, Sebastian Vettel, então piloto reserva da BMW, foi convocado e fez sua estréia no final de semana seguinte, em Indianápolis. Kubica nada sofreu de mais sério, mas foi mantido em observação pelos médicos.
O causo da vez aconteceu em Mônaco, e não por acaso foi escolhido, pois neste final de semana a Fórmula 1 correrá nas ruas apertadas do principado. Em 1982 a corrida por aquelas bandas completava sua 40ª edição. Pra variar, seguia recheada de polêmica, pois todos, de pilotos a chefes de equipe e jornalistas reclavam da qualidade do asfalto, do paddock apertado e pouca ou nenhuma privacidade para trabalhar.
Nos treinos, domínio da Renault, que aplicando seu costumeiro passeio naquela temporada marcou sua quinta pole position em seis corridas, desta vez com René Arnoux. Seu companheiro Alain Prost saía em quarto, atrás da Brabham de Riccardo Patrese, segundo, e da Alfa Romeo de Bruno Giacomelli, terceiro.
Na largada, Arnoux saltou na ponta e disparou na frente. Patrese largou mal, caindo para terceiro e perdendo mais uma posição para Prost logo na abertura da segunda volta. Confirmando o favoritismo da Renault, o francês ultrapassou também Giacomelli , imprimindo o domínio dos carros franceses na liderança.
Arnoux remava tranquilo em primeiro até errar e se esborrachar nos S’s da Piscina, na 15ª volta. Prost herdou a primeira posição e parecia ter a vitória já no bolso. Mas então choveu. Ali começou um dos maiores pandemônios que se tem notícia numa corrida de carros em toda história da Fórmula 1.
Tratava-se de uma traiçoeira chuva fina, na medida exata para enganar os pilotos, que não perceberam o asfalto virando aquele sabão inicial. Você motorista já viu isso. Antes de a chuva lavar o asfalto, há um estágio momentâneo, em que ele fica mais liso do que se estivesse completamente molhado. É ali que reside o perigo. Agora multiplique isso por motores com mais de 800 cavalos da era do motor turbo, pilotados por gente que está acostumada a andar no limite o pra lá dele, e aí teremos uma receita para o caos.
Prost, em mais uma amostra dos efeitos danosos que a água causava em seu cérebro quando escorria sobre capacete, perdeu a traseira na saída da Chicane do Porto, parando nos guard rail e dizendo adeus a uma vitória certa, a menos de 3 voltas do final.
Patrese que vinha atrás assume a ponta sorrindo, mas roda na obscenamente fechada curva do Loews. A televisão passa a exibir a Ferrari de Didier Pironi, novo líder, que se arrasta para a bandeirada mesmo com o bico do carro avariado. O francês abre a última volta e encaminha-se para a vitória, até que fica sem combustível na entrada do túnel. Pironi para desolado e ninguém mais sabe o que acontece. Quem é o novo líder? Alguém vai vencer esta corrida?
As câmeras começam a procurar a Alfa Romeo de Andrea de Cesaris, mas quando chegam nele, já é tarde. O italiano está parado na subida para o Cassino, também sem combustível. O diretor de imagens já nem sabe o que mostrar e exibe a Williams de Derek Daly, também encostando na La Rascasse. Daly estava uma volta atrás, mas a essa altura ninguém mais saberia quem estava em qual posição.
Finalmente a transmissão se acha e exibe o novo-velho líder: Riccardo Patrese. Mesmo tendo aberto a última volta quase um minuto atrás de Pironi, é dele novamente a liderança do GP de Mônaco. O italiano completa a corrida, cruza a linha de chegada timidamente, lamentando muito a rodada que, julgava ter lhe custado a vitória.
No túnel, Pironi pede uma carona para retornar aos boxes e Patrese encosta sua Brabham. O francês abraça-se ao santoantônio, dá tapinhas no capacete do italiano e o congratula: “parabéns, vencedor”. Só ali Patrese soube que, quase sem querer, havia vencido pela primeira vez na Fórmula 1.
O resultado da corrida maluca: Patrese em primeiro, mesmo rodando na penúltima volta. Pironi em segundo, mesmo com o bico avariado e sem gasolina. De Cesaris terceiro, também sem gasolina. Uma volta atrás, cruzam a linha as Lotus de Elio de Angelis e Nigel Mansell, quarto e quinto. Em sexto, Derek Daly, que parara na Rascasse com o carro todo quebrado. Prost, mesmo batendo a duas voltas e meia do fim, foi sétimo.
Ainda que com dez classificados ao final, apenas cinco carros efetivamente receberam a bandeira quadriculada na corrida em que, por pouco, não aconteceu de ninguém chegar ao final.
Auto explicativo, grandes pancadas da história da Fórmula 1 nesta sessão. E pra começar uma que eu assistia na TV, então com 10 anos, envolvendo um brasileiro – Christian Fittipaldi, perseguindo seu companheiro de equipe, o italiano Pierluigi Martini, ambos da Minardi, na última volta do Grande Prêmio da Italia de 1993.
O brasileiro entrou colado em Martini, e tentou a ultrapassagem na reta de chegada. O que acontece na sequência deixou todos boquiabertos.
Engraçada é a narração da lenda – Murray Walker, que se espanta com a magnitude do ocorrido.